O uso da inteligência artificial cresce nas organizações, mas uma questão merece atenção: estamos desenvolvendo profissionais preparados ou apenas pessoas preocupadas em demonstrar que acompanham as mudanças?
A tecnologia avança, mas as pessoas estão acompanhando?
Em muitas empresas, a inteligência artificial passou a ocupar um lugar de destaque nas reuniões, nos planejamentos e nas conversas sobre produtividade.
Gestores querem modernizar processos, reduzir custos e melhorar resultados. Profissionais, por sua vez, percebem que precisam desenvolver novas competências para permanecer relevantes no mercado de trabalho.
Até aqui, nada de extraordinário. As transformações tecnológicas sempre exigiram adaptação.
O problema começa quando a necessidade de demonstrar conhecimento se torna mais importante do que o próprio aprendizado.
Imagine uma reunião em que o gestor pergunta quantos colaboradores já utilizam inteligência artificial em suas atividades. Algumas pessoas levantam as mãos imediatamente. Outras, mesmo com pouca experiência, afirmam que estão utilizando ferramentas regularmente.
Entretanto, quando precisam explicar quais melhorias conseguiram implementar, surgem dificuldades.
Esse exemplo hipotético ajuda a compreender um fenômeno que vem sendo discutido no ambiente corporativo: a chamada IA performática.
O que é IA performática?
A expressão descreve o comportamento de profissionais que exageram seu conhecimento ou a utilização de ferramentas de inteligência artificial para atender às expectativas da organização.
Em outras palavras, procuram demonstrar uma competência que ainda não desenvolveram suficientemente.
Uma pesquisa divulgada pela Visier, em setembro de 2026, realizada com mil trabalhadores em tempo integral nos Estados Unidos, apresentou resultados que merecem reflexão.
Segundo o levantamento, 48% dos entrevistados admitiram ter exagerado, pelo menos algumas vezes, seu conhecimento ou utilização de inteligência artificial diante de colegas ou gestores.
Outros 45% afirmaram sentir pressão para utilizar essas ferramentas, mesmo sem possuir confiança suficiente para fazê-lo.
É importante destacar que esses resultados representam os profissionais pesquisados nos Estados Unidos e não podem ser automaticamente aplicados à realidade brasileira.
Ainda assim, os dados levantam uma questão importante para as organizações.
Será que estamos incentivando as pessoas a aprender ou apenas exigindo que demonstrem estar atualizadas?
Quando a pressão substitui o desenvolvimento
Toda transformação organizacional exige preparação.
Quando uma empresa implanta um novo sistema, normalmente precisa orientar seus colaboradores, revisar procedimentos e acompanhar a adaptação das equipes.
Por que seria diferente com a inteligência artificial?
Entretanto, algumas organizações começam a exigir resultados sem oferecer condições adequadas de aprendizagem.
O colaborador recebe a orientação para utilizar IA, mas não sabe exatamente quais ferramentas são permitidas, quais atividades podem ser realizadas ou como avaliar a qualidade das respostas.
Em determinadas situações, também existe o receio de parecer menos competente do que os colegas.
O resultado pode ser um ambiente no qual as pessoas escondem suas dificuldades para preservar a imagem profissional.
Esse comportamento merece atenção porque compromete uma condição essencial ao desenvolvimento humano: a possibilidade de reconhecer aquilo que ainda precisamos aprender.
Nenhum profissional desenvolve uma nova competência simplesmente porque recebeu uma ordem para demonstrá-la.
O aprendizado exige orientação, prática, correção e tempo.
A responsabilidade da liderança
Quando analisamos a IA performática sob a perspectiva do Desenvolvimento Humano Organizacional, percebemos que a questão ultrapassa o domínio da tecnologia.
Estamos falando de comportamento humano, expectativas profissionais e cultura organizacional.
O gestor exerce influência significativa sobre a maneira como seus colaboradores respondem às mudanças.
Se demonstra impaciência diante das dificuldades, pode incentivar o silêncio.
Se valoriza apenas resultados imediatos, corre o risco de estimular comportamentos superficiais.
Por outro lado, quando reconhece que aprender faz parte do processo de transformação, contribui para um ambiente mais favorável ao desenvolvimento.
Isso não significa eliminar cobranças ou aceitar resultados insatisfatórios.
Significa compreender que a exigência de desempenho precisa estar acompanhada das condições necessárias para alcançá-lo.
Um líder preparado não pergunta somente se seus colaboradores estão utilizando inteligência artificial.
Ele procura compreender como estão utilizando, quais dificuldades enfrentam e quais resultados estão conseguindo produzir.
Essa diferença modifica a qualidade da gestão.
O perigo de confundir utilização com produtividade
Uma empresa pode comemorar o fato de que grande parte de seus colaboradores utiliza ferramentas de inteligência artificial.
Entretanto, essa informação isolada não demonstra que houve melhoria de desempenho.
Considere uma equipe administrativa que começa a utilizar IA para elaborar relatórios.
Anteriormente, o documento exigia duas horas de trabalho. Com a ferramenta, a primeira versão fica pronta em vinte minutos.
Aparentemente, temos um ganho expressivo.
Mas existe uma questão: quanto tempo será necessário para conferir as informações, corrigir possíveis erros e adequar o conteúdo às necessidades da empresa?
Se o trabalho de revisão consumir mais tempo do que o previsto, a produtividade real poderá ser diferente daquela apresentada inicialmente.
Por isso, o gestor precisa avaliar o processo completo.
A inteligência artificial deve contribuir para a qualidade das entregas, a organização das atividades e a utilização responsável dos recursos.
A simples presença de uma ferramenta tecnológica não representa, necessariamente, evolução organizacional.
O desenvolvimento de competências continua indispensável
Uma das preocupações que observo na discussão sobre novas tecnologias é a possibilidade de confundirmos acesso à informação com desenvolvimento de conhecimento.
São coisas diferentes.
Uma pessoa pode utilizar uma ferramenta para produzir um texto, organizar dados ou elaborar uma apresentação sem compreender adequadamente o conteúdo produzido.
Isso cria uma dependência que merece atenção.
O profissional precisa manter sua capacidade de análise, interpretação e julgamento.
Na liderança, essa necessidade se torna ainda mais evidente.
Um gestor pode utilizar inteligência artificial para organizar informações que auxiliem uma decisão. Entretanto, continua sendo responsável por avaliar o contexto, considerar as consequências e responder pelos resultados.
A tecnologia pode ampliar nossa capacidade de trabalho, mas não elimina a responsabilidade profissional.
Por essa razão, as empresas precisam investir no desenvolvimento de competências técnicas e humanas.
Pensamento crítico, comunicação, capacidade de aprendizagem e discernimento permanecem relevantes.
Como desenvolver uma cultura de aprendizagem real
O primeiro passo é reconhecer que nem todos os colaboradores possuem o mesmo nível de familiaridade com a tecnologia.
Alguns aprendem rapidamente. Outros precisam de mais orientação e oportunidades de prática.
Essas diferenças não devem ser tratadas automaticamente como falta de comprometimento.
A empresa pode começar identificando atividades nas quais a inteligência artificial realmente oferece benefícios.
Em seguida, deve estabelecer objetivos claros, selecionar ferramentas adequadas e preparar as equipes.
O treinamento precisa considerar situações reais de trabalho.
Não basta apresentar recursos disponíveis. É necessário demonstrar como utilizá-los, quais cuidados adotar e como verificar os resultados.
Também considero importante criar oportunidades para que os colaboradores compartilhem suas experiências.
Quem encontrou uma aplicação eficiente pode apresentar aos colegas. Quem identificou uma limitação pode contribuir para evitar erros semelhantes.
Dessa maneira, o conhecimento deixa de depender exclusivamente de iniciativas individuais e passa a integrar o processo de desenvolvimento da organização.
Outro cuidado indispensável envolve a segurança das informações.
Os profissionais precisam compreender que nem todo documento, dado pessoal ou informação confidencial pode ser inserido em ferramentas externas.
Aprender a utilizar inteligência artificial também significa reconhecer seus limites.
A liderança precisa aprender primeiro?
Não necessariamente primeiro, mas precisa participar ativamente do processo.
O gestor não precisa dominar todas as ferramentas disponíveis. Entretanto, deve compreender suas possibilidades, limitações e impactos sobre o trabalho.
Precisa, sobretudo, demonstrar disposição para aprender.
Quando um líder reconhece que ainda não conhece determinado recurso, mas procura compreendê-lo, transmite uma mensagem importante à equipe.
O aprendizado não é sinal de fraqueza profissional.
É uma necessidade permanente.
Uma pesquisa divulgada pelo LinkedIn em junho de 2026 apontou que 90% dos executivos de alto escalão entrevistados consideravam necessário desenvolver continuamente novas competências para acompanhar as transformações.
O dado reforça uma realidade: as mudanças atingem diferentes níveis da organização.
O desenvolvimento profissional não pode ser uma exigência direcionada exclusivamente aos colaboradores.
O que sua empresa realmente valoriza?
A inteligência artificial continuará provocando mudanças na maneira como trabalhamos.
Novas ferramentas surgirão, processos serão modificados e determinadas atividades passarão por transformações importantes.
Entretanto, precisamos ter cuidado para não construir organizações nas quais parecer competente seja mais valorizado do que desenvolver competência.
Uma cultura de aprendizagem saudável permite que as pessoas reconheçam dificuldades, recebam orientação e demonstrem sua evolução por meio de resultados concretos.
A liderança possui responsabilidade direta nesse processo.
Antes de exigir que todos utilizem inteligência artificial, é necessário compreender se os profissionais sabem por que devem utilizá-la, como aplicá-la e quais resultados precisam alcançar.
A tecnologia pode contribuir significativamente para o desenvolvimento das empresas.
Mas o desenvolvimento humano continua sendo indispensável.
Afinal, uma organização não se torna mais inteligente simplesmente porque utiliza inteligência artificial. Ela evolui quando suas pessoas aprendem a pensar, decidir e trabalhar melhor com os recursos disponíveis.
Silvio Fernandes
Consultor em Desenvolvimento Humano Organizacional, Desenvolvimento de Lideranças e Educação Corporativa.